quarta-feira, outubro 12, 2005

Notas Para a Definição do IndieLisboa 2005 pt. 4



Sortido Rico

A representação asiática no certame foi assegurada por esse monte de clichés chamado Sunday Seoul (Observatório, 28 de Abril, King 1, 18h45m, audiência pela metade), realizado por Oh Myung-hoon. Seis personagens cruzam-se na metrópolis em busca de amor, intimidade e esperança. Ainda que capture muito muito bem os tons da cidade sul-coreana, e mesmo que rodado com segurança e conhecimento técnicos, esta canção já foi muito ouvida, com menos pressa - é difícil fazer um mosaico em 72 minutos - e com gente dentro dos corpos dos actores.

Aaltra foi o melhor e mais injustamente ignorado filme do IndieLisboa 2005. Dois vizinhos odeiam-se e decidem resolver os seus problemas através de uma altercação física. Um trator cai-lhes em cima e torna-os paraplégicos. De quem é a culpa? Do tractor, claro! Embarcam ambos numa viagem de cadeira de rodas (!) da Bélgica (seu país natal) até à Finlândia (!!), onde o veículo foi construído. Pelo caminho, maltratam toda e qualquer pessoa que os tente auxiliar, numa espiral cómica de desespero silencioso e de hedonismo desesperado, que inclui o roubo da cadeira de rodas eléctrica de uma senhora idosa (!!!) e o consumo total da comida caseira de uma bem-intencionada família alemã. No fim, tudo acaba bem, e prova-se o humanismo, a piada e o enorme coração desta comédia desajeitada.

Dirigido e co-protagonizado por Benoît Delépine e Gustave Kerverne, Aaltra perdeu o título de melhor filme do festival para The Forest for the trees ( Competição, 26 de Abril, King 1, sessão esgotada), a pseudo-engraçada e pseudo-vontriesca primeira obra de Maren Ade que, na sua busca por uma demolição da personagem feminina patente em Breaking The Waves (1996) e Dogville (2002), se esquece que as personagens do dinamarquês são o melhor nos seus espaço e tempo, ilhas num mar de vacuidade e maldade, e substitui essa crença por um selvagem, gratuito e lento homicídio da sua personagem principal, prova de um tremendo desrespeito. A tal personagem é apresentada como uma idiota tão grande, que quando (finalmente!) se resolve suicidar, a sua subsequente comunhão com a Natureza demonstra que mesmo esta a quer ver morta! Dúvida: para quê criar uma personagem apenas para ser torturada, sem lhe dar a minima hipótese de redenção? Ah, essa personagem é uma professora de liceu sem amigos, carente e incapaz de granjear respeito, mas isso é só um pretexto.

O resultado final do IndieLisboa 2005? Alguns filmes bons, uma óptima organização, uma selecção decente e um péssimo júri.

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5 Comentários:

Blogger Daniel Pereira disse...

Bom, percebo finalmente o motivo da nossa discórdia, afinal no mais importante prémio do festival. Como sabes, adorei o filme. Não estando assim tão longe de Von Trier, percebo que a modernidade formal não seja a mesma. Mas estamos a falar de uma estreante. Criar uma personagem só para a torturar? Mas e se não estivermos só a falar da personagem? E se estivermos a falar naquilo que a rodeia? Na impossibilidade?

De qualquer modo, creio que o júri estev bem ao premiar este filme, apesar de preferir "As Consequências do Amor", não sei se viste? Mas fiquei satisfeito com a menção honrosa àquele imenso actor. Quanto às curtas, ganhou uma das melhores, que ainda há pouco ganhou mais um prémio em Portugal, Imago se não me engano.

Finalmente, alguém VIU o "AAltra"...

6:55 da tarde, outubro 13, 2005  
Blogger Miguel Domingues disse...

Quero dar os meus parabéns ao Daniel Carvalho e ao Gonçalo Sá. Eles deram-me uma das maiores desilusões da minha vida, quando foram escolhidos, em detrimento da minha pessoa, pelo Cinema2000 para serem correspondentes do site no festival. Já tinha o KingCard nessa altura, portanto consegui ainda ver alguns filmes. Mas tendo lido o trabalho deles nessa altura e continuado a segui-lo posteriormente, devo dizer que se perdi para alguém, ainda bem que foi para eles.

2:39 da tarde, outubro 14, 2005  
Blogger Daniel Pereira disse...

Daniel Carvalho? Daniel Pereira. Que sou eu.

6:14 da tarde, outubro 14, 2005  
Blogger gonn1000 disse...

Obrigado, Miguel, também gostei dos teus textos sobre o festival, ainda que as nossas opiniões acerca dos filmes que ambos vimos seja quase sempre antagónica :)

12:45 da tarde, outubro 20, 2005  
Blogger Miguel Domingues disse...

peço desculpa, daniel. foi daqueles casos em que confundi o nome mas soube sempre quem foi o autor dos textos - e sei que és tu.

2:59 da tarde, outubro 21, 2005  

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