sexta-feira, outubro 27, 2006

O meu DocLisboa

O DocLisboa é, por assim dizer, diferente de outros festivais (nomeadamente o IndieLisboa) em termos de ambiente. Talvez por já se ter imposto e por já estar na quarta edição, não há, pelo menos nas sessões a que fui, a febrilidade e o entusiasmo que há no outro festival lisboeta.
O que, por sua vez, não significa que não tenha sido um sucesso tremendo esta edição de 2006, como o atestam as sucessivas sessões esgotadas, por exemplo, no período da tarde. Este é um festival consolidado, e cujos espectadores se dividem entre os convertidos, tranquilos no seu percurso pelos filmes, e os iniciados, que se adaptam imediatamente à calma e sofisticação deste festival, no que muito ajudam as extraordinárias instalações da Culturgest.

O meu percurso começou com Mysteryon (1991), primeira parte de uma trilogia dedicada a questões religiosas da autoria da finlandesa Pirjo Honkasalo. Mostrando o percurso iniciático de uma jovem candidata a freira juntamente com as celebrações religiosas que pautam o dia-a-dia das freiras de convento na Estónia, é um filme lento e arrastado, que tenta perscrutar por detrás da rotina do convento e penetrar as motivações de quem faz da fé a sua vida. Não o consegue, e sobram apenas um conjunto de vinhetas sem particular interesse,à excepção de mostrar que as feridas espirituais das candidatas são tantas que estas optam por ir para um sítio onde essas feridas doam menos e não se possam expandir. Nem a curiosidade de ter sido filmado em condições muito adversas, ainda durante a existência da URSS (numa época em que as associações religiosas de qualquer tipo eram proibidas), lhe conferem estatuto maior que a curiosidade.




O Japão merece uma atenção especial em 2006 com a retrospectiva “Histórias Mínimas – O Documentário Japonês Contemporâneo”. E história mínima, do ponto de vista estético, é o que se pode dizer de The Cheese and The Worms, documentário caseiro e doméstico de Kato Haruyo. Durante hora e meia, acompanham-se dois momentos muito especiais na vida da realizadora: a morte de sua mãe e o período subsequente. Tocante retrato da doença, é um filme simultaneamente carinhoso e lúcido, que filma a vida quotidiana (em câmara digital). É impressionante a tranquilidade zen com que, no velório, filma o corpo da mãe como se estivesse grata por tudo o que a progenitora fez por ela, do mesmo modo que, já antes, tinha filmado o calvário físico da mesma com uma enorme sensação de partilha. Ademais, as crianças, sobrinhos da cineasta, estão sempre por lá para nos lembrar da eterna continuidade da vida. No final, quando a avó de noventa anos vê o filme que mostra os últimos tempos da filha, percebe-se: aquele é somente um “home movie” que, não sendo nada de extraordinário cinematograficamente, deixa um conforto na alma a todos os que o vêem.




O mesmo conforto que Logo Existo, da portuguesa Graça Castanheira, deixa. Como homenagem à sua mãe, a quem um Acidente Vascular-Cerebral mudou completamente o feitio, a realizadora foi à procura de outras pessoas afectadas por esta doença. Duas pessoas (um actor teatral e, segundo creio, uma contabilista) que tentam ultrapassar a sua nova condição, tudo filmado de uma forma sentimental mas nunca melosa. É um filme reconciliador, porquanto nos mostra a luta contra as dificuldades que todos os humanos têm de travar.




Outra amostra há de uma enorme saúde no documentário português: Cartas a Uma Ditadura, de Inês de Medeiros faz das suas fraquezas forças. Por um lado, um dispositivo banal, centrado em depoimentos, em imagens de arquivo, em sons da época. Por outro, uma pungente radiografia, com a precisão do grande jornalismo, de um tempo em que o medo se travestia de esperança. Através do achamento de um baú de cartas a responder ao chamamento de uma associação de mulheres pró-salazaristas, o que se vê é um país assustado, passivo, conivente, ignorante e cioso da sua paz. Os problemas que se entrevêem neste filme são comuns aos dias de hoje – e o kitsch também: é brilhante o momento em que uma carta define a candidatura do General Humberto Delgado como “um vendaval satânico”.




Improvavelmente, o que esta pequeníssima selecção trouxe de melhor foi o sempre tão fustigado cinema português. Mas esta foi também uma edição marcada pelo estado do mundo, com documentários sobre a prisão da Baía de Guantanamo e o mundo empresarial. Esta pequena amostra, ainda que centrada numa importantíssima componente humana, não é nem por sombras significativa do programa do festival. Mas, no desbravar de vários aspectos da natureza humana, o DocLisboa é um evento fundamental. A passagem pela Culturgest foi, sem qualquer dúvida, muito recompensadora.

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sábado, agosto 05, 2006

E agora, para algo bastante parecido - ii

Também já está disponível no Cinéfilos.tv a ficha de Os Amantes Regulares, que estreia no próximo dia 10 de Agosto. Vejam o filme, que este bem merece. Se quiserem, leiam também o texto. Obrigado.

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sexta-feira, agosto 04, 2006

E agora, para algo bastante parecido - i

Comecei esta semana a colaborar com o site Cinéfilos.tv. Para a minha primeira crítica, consultar no site a ficha de Miami Vice. Obrigado.

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quinta-feira, julho 06, 2006

Aí está, mais cedo do que o previsto, o que andei a fazer nesta pausa

O Novo Mundo de Terrence Mallick– O maior desgosto do ano. Um filme que, na sua busca quase demencial pela beleza, se aproxima da sensação causada por uma enxaqueca profunda. Uma overdose de estética.

Maria Madalena de Abel Ferrara– O brutamontes nova-iorquino faz um dos mais tocantes filmes sobre a fé e as dificuldades da relação com Deus. Um dos melhores filmes do ano.

Wassup Rockers de Larry Clark– Estou farto de ser burlado por este gajo.

A Comédia do Poder de Claude Chabrol– Sólido até aos dentes. Chabrol já não inventa nada, mas duvido que alguma vez se veja um filme dele com desprazer.

O Código Da Vinci de Ron Howard– Inconsistente, de uma linearidade que quer parecer escorreita, mas é apenas pobre. Mais depressa Portugal vence a selecção francesa do que Howard faz um filme bom.

Os Amigos de Dean de Arie Posin– Sobrevalorizado. Entre o retrato diluente dos súburbios americanos e um Donnie Darko de terceira, fica um esboço para um filme bem mais interessante.

Stoned, Anos Loucos (de um gajo qualquer cujo nome, a bem dizer, não interessa nada)– Mau. Muito mau. Péssimo.

A Lula e Baleia de Noah Baumbach– Lindíssimo. Um filme que toca com o peso lírico dos momentos mais belos da vida.

A Rapariga Santa de Lucrecia Martel– Portentoso. A sexualidade destilada através da asfixia.

Klimt de Raoul Ruiz– Um dos piores filmes do ano. Enfadonho e confuso, quer parecer complexo quando é apenas parvo. E até há algumas ideias visuais…

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quarta-feira, outubro 12, 2005

Notas Para a Definição do IndieLisboa 2005 pt. 4



Sortido Rico

A representação asiática no certame foi assegurada por esse monte de clichés chamado Sunday Seoul (Observatório, 28 de Abril, King 1, 18h45m, audiência pela metade), realizado por Oh Myung-hoon. Seis personagens cruzam-se na metrópolis em busca de amor, intimidade e esperança. Ainda que capture muito muito bem os tons da cidade sul-coreana, e mesmo que rodado com segurança e conhecimento técnicos, esta canção já foi muito ouvida, com menos pressa - é difícil fazer um mosaico em 72 minutos - e com gente dentro dos corpos dos actores.

Aaltra foi o melhor e mais injustamente ignorado filme do IndieLisboa 2005. Dois vizinhos odeiam-se e decidem resolver os seus problemas através de uma altercação física. Um trator cai-lhes em cima e torna-os paraplégicos. De quem é a culpa? Do tractor, claro! Embarcam ambos numa viagem de cadeira de rodas (!) da Bélgica (seu país natal) até à Finlândia (!!), onde o veículo foi construído. Pelo caminho, maltratam toda e qualquer pessoa que os tente auxiliar, numa espiral cómica de desespero silencioso e de hedonismo desesperado, que inclui o roubo da cadeira de rodas eléctrica de uma senhora idosa (!!!) e o consumo total da comida caseira de uma bem-intencionada família alemã. No fim, tudo acaba bem, e prova-se o humanismo, a piada e o enorme coração desta comédia desajeitada.

Dirigido e co-protagonizado por Benoît Delépine e Gustave Kerverne, Aaltra perdeu o título de melhor filme do festival para The Forest for the trees ( Competição, 26 de Abril, King 1, sessão esgotada), a pseudo-engraçada e pseudo-vontriesca primeira obra de Maren Ade que, na sua busca por uma demolição da personagem feminina patente em Breaking The Waves (1996) e Dogville (2002), se esquece que as personagens do dinamarquês são o melhor nos seus espaço e tempo, ilhas num mar de vacuidade e maldade, e substitui essa crença por um selvagem, gratuito e lento homicídio da sua personagem principal, prova de um tremendo desrespeito. A tal personagem é apresentada como uma idiota tão grande, que quando (finalmente!) se resolve suicidar, a sua subsequente comunhão com a Natureza demonstra que mesmo esta a quer ver morta! Dúvida: para quê criar uma personagem apenas para ser torturada, sem lhe dar a minima hipótese de redenção? Ah, essa personagem é uma professora de liceu sem amigos, carente e incapaz de granjear respeito, mas isso é só um pretexto.

O resultado final do IndieLisboa 2005? Alguns filmes bons, uma óptima organização, uma selecção decente e um péssimo júri.

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terça-feira, setembro 27, 2005

Notas Para a Definição do IndieLisboa 2005 pt. 3

Invasão Sul-Americana

A América do Sul foi a localização geográfica privilegiada deste certame. Na secção Herói Independente, dedicada ao novo cinema argentino - a par com as obras do cineasta chinês Jia Zhang-Ke, as hostilidades abriram com Mundo Grua, obra de estreia de Pablo Trapero (Herói Independente, 22 de Abril, King 3, 15h30m, sessão composta). Filme seminal na "nova vaga" deste país, é um filme crú, de camera ao ombro, feio, porco e bom, que segue a vida de uma ex-rock star forçada a a trabalhar na construcção civil devido à crise económica que grassa no país. Fortemente assentimental e com um humor muito desesperado (Médico: Fuma? Paciente: Um pouco. Médico: Quantos cigarros por dia? Paciente: Trinta.) foi uma lufada de ar fresco numa cinematografia à época estagnada.
Dias de Santiago (Competição, King 1,24 de Abril, King 3, sessão cheia), também uma estreia, a de Josué Mendes, é como que uma mistura peruana entre Taxi Driver e Os Imortais. A personagem-título é um antigo soldado nas guerras do seu país contra o Equador e contra os barões da droga, obrigado a regressar a uma vida incerta, triste, misógina, cheia de irrupções regulares de violência. Não sendo exactamente original, é interessante porque mais gráfico do que a maioria na demonstração da paranóia ubíqua da sua personagem, misturando para isso imagens limpas e tradicionais com video digital granuloso e filtro de imagem azul-carregado, dependendo da violência do momento. E assim se colmata alguma previsibilidade.
Não há duas sem três: a terceira estreia proveniente deste continente foi Parapalos ( Competição, 29 de Abril, King 1, esgotado), de Ana Poliak, uma história prazenteira de um grupo de personagens que faz o turno da noite de um salão de bowling em Buenos Aires. O filme é uma viagem a um quotidiano desesperançado, em que o facto de se trabalhar num sítio tão esquecido que nem sequer tem reposição automática de pinos - o título é o castelhano para "pin boy" - faz da memória nuns casos e da vegetação noutros a prática corrente. Misto de malaise civilizacional, escape da crise e mágoa constante, é ganho pela levitação e pelo tratamento poético evanescente da tristeza. Esperemos que Ana Poliak volte brevemente.

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terça-feira, setembro 13, 2005

Notas Para a Definição do IndieLisboa pt.2



Suspeitos do Costume
Johnnie To é um dos nomes descobertos em Portugal graças ao festival lisboeta. O ano passado, foi Breaking News, um cinético thriller longe da perfeição, mas filmado de forma brilhante e com enorme ironia no retrato de um conflito entre a polícia e um gangue, com os media pelo meio. O filme deste ano, Yesterday Once More (Observatório, 21 de Abril, King 3, 22h15m) foi uma enorme decepção. Claramente inspirado em Ladrão de Casaca (1955) de Alfred Hitchcock, é a história de dois academicamente brilhantes e economicamente bem-sucedidos cleptomaníacos que, numa eterna dança do acasalamento, envolvem em flirts constantes à volta do roubo de jóias imensamente valiosas. Mesmo com actores competentes e carismáticos - destaque para a super-estrela asiática Andy Lau - não só é redundante como "heist movie", como perde interesse enquanto "tearjerker". Vale apenas como exemplo de uma produção oriental de alto calibre.
Vencedor da competição do ano anterior com Le Monde Vivant, Eugène Green (americano radicado em França), regressou em 2005 com Le Pont des Arts (Observatório, 22 de Abril, King 1, 18h45m), o retrato dos relacionamentos de quatro personagens e da postura de cada uma perante a arte e a cultura (fonte de poder ou meio de desenvolvimento ético e pessoal) e como estas podem ser uma ponte entre a vida e a morte. De óptima respiração e buscando incessantemente o lado poético dos gestos quotidianos, almeja também, de uma forma algo irritante, mostrar com demasiada frequência a cultura geral do seu autor, ameaçando transformar esta experiência agradável e razoavelmente recompensadora no equivalente cinematográfico de um concurso televisivo.

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terça-feira, agosto 30, 2005

Notas Para a Definição do IndieLisboa 2005 pt. 1

A 2ª edição do Festival Internacional de Cinema de Lisboa, decorrida entre 21 de Abril e 1 de Maio, foi um sucesso esmagador. A meio da primeira semana, sete mil bilhetes tinham sido adquiridos e muita gente foi forçada a ver filmes diferentes daqueles que tinha planeado e, no caso das sessões nocturnas dos Sábados do festival, esgotadas muito antes do seu tempo, obrigadas a regressar a casa. O contacto da organização com os espectadores melhorou, e um cocktail, acessível através da compra de um bilhete para qualquer sessão do festival, foi organizado quotidianamente, com bebidas e aperitivos grátis e gente a acotovelar-se para entrar. Sobretudo, alguns dos realizadores participantes no ano anterior tiveram direito a dose repetida este ano, ameaçando assim atribuir ao IndieLisboa uma identidade muito própria, da mesma forma que Vicenzo Natali contribui para a identidade do FantasPorto. Face a todo este cenário, o único senão acabou por ser a mediania generalizada dos filmes exibidos.
(Texto em quatro partes - devido à sua extensão - e a completar nos próximos dias)

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